O primeiro trimestre de 2026 tende a consolidar um cenário mais desafiador para o setor de e-commerce no Brasil, marcado por maior competição e custos operacionais em alta. Nesse ambiente, o Mercado Livre deve seguir como principal destaque em crescimento, segundo projeções do banco Safra, embora também enfrente pressão sobre suas margens operacionais devido ao aumento de despesas necessárias para sustentar sua liderança.
Enquanto isso, empresas tradicionais do varejo digital, como Magazine Luiza e Casas Bahia, devem apresentar um ritmo de expansão mais moderado. A desaceleração das receitas, combinada ao aumento de custos financeiros em um cenário de juros elevados, tende a impactar diretamente a rentabilidade dessas companhias, reforçando um ambiente mais seletivo para investidores.
No caso da Magazine Luiza, a expectativa é de estabilidade nas vendas no período, com receita estimada em R$ 9,5 bilhões, representando uma leve alta de 1% na comparação anual. O desempenho deve refletir uma combinação de fatores divergentes entre os canais de venda. As lojas físicas mostram recuperação, com crescimento projetado de 5%, enquanto o e-commerce enfrenta dificuldades, com queda de 12% nas vendas de terceiros e estabilidade nas vendas próprias. Esse cenário é influenciado pela continuidade da fraqueza em categorias relevantes, como eletrônicos e eletrodomésticos.
Como consequência, a companhia deve registrar nova deterioração de rentabilidade. A margem EBITDA tende a recuar, refletindo o aumento das despesas operacionais e financeiras. O resultado final pode voltar ao terreno negativo, com prejuízo estimado em R$ 28 milhões, revertendo o lucro de R$ 11 milhões registrado no mesmo período de 2025. O principal fator por trás dessa piora é o impacto dos juros elevados sobre o custo da dívida.
Já a Casas Bahia deve apresentar crescimento mais consistente nas vendas próprias, impulsionado por ajustes estratégicos no portfólio e pela parceria com o Mercado Livre. Ainda assim, o avanço total da receita deve ser limitado a cerca de 3% na comparação anual. O desempenho positivo das vendas diretas, com alta estimada de 25%, deve ser parcialmente compensado pela estabilidade das vendas de terceiros e pela queda de aproximadamente 6% nas lojas físicas, pressionadas por uma base comparativa mais forte.
Essa mudança no mix de vendas tende a impactar negativamente a rentabilidade da companhia. A margem bruta deve recuar, assim como a margem EBITDA, refletindo a dificuldade em diluir custos fixos em um cenário de crescimento mais lento. Mesmo com melhora no resultado financeiro após a conversão de dívida em capital, a empresa ainda deve registrar prejuízo líquido de R$ 274 milhões no trimestre, embora menor que a perda de R$ 408 milhões observada um ano antes.
Diante desse contexto, os resultados do primeiro trimestre reforçam uma mudança importante na dinâmica do setor. Em um ambiente mais competitivo, o crescimento de receita isoladamente já não é suficiente para sustentar o valor das empresas. O mercado passa a priorizar a capacidade de preservar margens, controlar despesas e manter a geração de caixa mesmo sob pressão macroeconômica.
A temporada de balanços deve, portanto, oferecer sinais claros sobre o equilíbrio entre expansão e rentabilidade no varejo digital. Para Magazine Luiza e Casas Bahia, o desafio é mais evidente, exigindo maior eficiência operacional. Já para o Mercado Livre, a principal questão será até que ponto o crescimento acelerado conseguirá compensar a pressão crescente sobre suas margens, em um cenário onde escala já não garante, por si só, rentabilidade sustentável.